E, hoje, chega ao fim mais um Carnaval. Infelizmente, para o povo da Terceira, pois o Carnaval por cá é vivido com grande intensidade. É aqui, na ilha Terceira, que é exibida a maior manifestação de teatro popular de Portugal e do Mundo. Manifestação, que remonta ao tempo dos primeiros povoadores e reflecte um estilo teatral bem ao jeito dos autos vicentinos. São danças, bailinhos e comédias que percorrem os diversos salões das freguesias da ilha. Este ano saíram à rua 55 danças e bailinhos que envolveram cerca de 1000 músicos e actores amadores, menos que o ano passado, mas não deixa de ser um bom número, tendo em conta a situação de Portugal. No palco, os músicos e actores cantam, dançam e representam. Os assuntos, enredos, são marcados essencialmente pela crítica social. Ora, misturar música, dança, representação e crítica social em cima de um palco dá muito trabalho e demonstra a criatividade dos terceirenses. E, é isto que torna o nosso Carnaval único.
Este ano, infelizmente não me sentei em nenhum salão com o meu farnel a ver as nossas danças, pois tenho um relatório para fazer e sei que, mal me sentasse nunca mais sairia de lá e o relatório ficaria por fazer. Contudo, vi e ouvi a transmissão de alguns bailinhos e danças via internet, televisão e rádio. Mas como boa terceirense, a sensação não é a mesma. Os salões têm aquele cheiro, alegria e calor que dão brilho ao Carnaval. Posso ficar dormente e sem saber como me hei-de sentar de tão desconfortável estar, mas é "gostoso demais". Só quem é terceirense percebe o que escrevi.
Há quem diga que o nosso Carnaval, o Carnaval como o conhecemos, está em risco, sendo uma das razões as transmissões via internet, fazendo com que as pessoas não vivam verdadeiramente o Carnaval, levando ao comodismo. Quero acreditar que não é bem assim, mas só quem entra nesta festa é que sabe responder-me a isso. Se os salões estão vazios não culpo apenas a internet, deverá haver outras razões como o estilo de vida das pessoas. E, quanto à proibição da transmissão de algumas danças e bailinhos, inicialmente achei que seria uma atitude incorrecta por parte dos grupos, tendo em conta que os nossos emigrantes gostariam recordar o seu Carnaval. Porém, ao reflectir sobre esse assunto, achei que foi uma atitude correcta. Foram eles que dedicaram o seu tempo a ensaiar, gastaram o seu dinheiro e têm todo o direito de proibir a transmissão do seu bailinho ou dança. E, há muito boa gente que se aproveita para gravar os bailinhos e danças, para mais tarde vender DVD's, isso é exploração, o que não é correcto. Felizmente, agora, as pessoas estão a ver as coisas como realmente são. Não queremos tornar o Carnaval num negócio, isso sim poria fim ao mesmo. Esperemos que os as pessoas que estão inseridas nesta linda manifestação consigam fazer alguma coisa.
Desde os meus 13, 14 anos tenho a intenção de escrever um assunto para uma dança. Infelizmente, fui deixando os anos passar e nunca tive coragem de me sentar e escrever algum enredo. Talvez, por achar que se trata de algo que é importante e que não deverá ser considerado fácil. Respeito muito senhores como o Hélio Costa e o João Mendonça, e acho que o que eles fazer é louvável. Jamais conseguirei escrever assuntos, enredos, como eles. É uma tarefa difícil que merece todo o respeito. Porém, não deixo de sonhar que um dia irei escrever algo que "chegue aos seus calcanhares", mas, se calhar, vou levar este sonho "para a cova".
Gosto imenso do Carnaval da Terceira e sei se um dia tiver que sair da ilha, perder o Carnaval será um vazio enorme. Se calhar ainda passo o Carnaval de cama e a rezar para os dias passarem depressa. ;)
Bem, hoje escrevi um grande post (foi para compensar os 8 dias sem escrever neste cantinho), espero que gostem e partilhem comigo o vosso Carnaval, como ele é vivido.
Com carinho.
PS: Como em todos os anos, cá em casa fazemos os nossos coscorões no primeiro dia de Carnaval. :P